Hipertensão controlada não impede uma cirurgia. Ela é a condição crônica mais frequente entre pacientes cirúrgicos, e milhões de procedimentos são feitos todos os anos em pessoas hipertensas sem qualquer intercorrência. O que preocupa a equipe não é o diagnóstico, é a pressão descontrolada no momento do procedimento e a variação brusca durante a anestesia. A avaliação existe para confirmar que o controle está adequado e que os órgãos não sofreram danos pela pressão ao longo do tempo.
Qual nível de pressão costuma adiar a cirurgia
Não existe um número absoluto que sirva para todos os casos, mas há faixas de referência usadas na prática.
Pressões abaixo de 180/110 mmHg, em pacientes sem sinais de sofrimento de órgão-alvo, geralmente não são motivo para adiar uma cirurgia eletiva. Muita gente se surpreende com isso, porque a suposição comum é que qualquer valor elevado impede operar.
A partir de 180/110 mmHg, a conduta habitual é adiar procedimentos eletivos e otimizar o tratamento antes. A razão é que, nessa faixa, a chance de variações intensas de pressão durante a anestesia aumenta, e essa instabilidade é o que traz risco.
Existe um detalhe que muda a leitura: a pressão medida no consultório costuma vir mais alta pela ansiedade da própria consulta, o chamado efeito do avental branco. Por isso, uma única medida elevada não define conduta. O médico pode repetir a aferição após alguns minutos de repouso, pedir medidas em casa ou solicitar um MAPA para entender o comportamento real ao longo do dia.
Mais importante que o número isolado é a presença de sinais de lesão em órgãos: alterações no eletrocardiograma, aumento do ventrículo esquerdo no ecocardiograma, comprometimento da função renal ou alterações no fundo de olho. Esses achados pesam mais na decisão do que a leitura daquele dia.
O que a avaliação verifica em quem é hipertenso
Há quanto tempo você tem hipertensão e como ela vem se comportando. Pressão alta de longa data e mal controlada tem impacto diferente de um diagnóstico recente e bem conduzido.
Quais medicações você usa, em que doses e horários. Essa informação orienta diretamente o que fazer na manhã da cirurgia.
Se existe repercussão em órgãos. O eletrocardiograma pode mostrar sobrecarga do ventrículo esquerdo. O ecocardiograma, quando indicado, mostra a espessura das paredes e a função de bombeamento. Exames de sangue avaliam a função renal.
Se há outras condições associadas. Hipertensão raramente vem sozinha: diabetes, colesterol alto, obesidade e apneia do sono são companhias frequentes, e o conjunto pesa mais que cada item isolado.
Sua capacidade funcional. A pergunta sobre subir escadas ou caminhar sem cansar continua sendo uma das informações mais valiosas, porque mostra na prática como o seu sistema cardiovascular responde ao esforço.
Devo tomar o remédio da pressão no dia da cirurgia?
Esta é a dúvida mais frequente, e a resposta padrão surpreende parte dos pacientes: na maioria dos casos, sim, com um pequeno gole de água, mesmo em jejum.
Suspender abruptamente medicações de pressão pode causar elevação de rebote, exatamente o oposto do que se deseja no dia do procedimento. Isso é particularmente verdadeiro para os betabloqueadores, cuja interrupção brusca pode provocar taquicardia e picos pressóricos.
A exceção mais comum são os inibidores da ECA, terminados em "pril" como enalapril, lisinopril e ramipril, e as sartanas, como losartana, valsartana e olmesartana. Alguns serviços orientam suspender a dose da manhã da cirurgia, porque essas classes podem contribuir para queda acentuada de pressão durante a anestesia. Essa conduta varia entre instituições e entre pacientes.
Diuréticos costumam ter a dose da manhã suspensa em muitos protocolos, pela combinação de jejum e efeito sobre volume e eletrólitos.
A conduta segura é objetiva: pergunte na consulta pré-anestésica quais remédios tomar na manhã da cirurgia, anote a resposta e leve a anotação com você. Não decida sozinho, nem por analogia com o que outra pessoa fez.
Como chegar bem preparado
Meça sua pressão em casa nas semanas anteriores e anote. Duas medidas por dia, uma pela manhã e outra à noite, por alguns dias, em repouso, com o braço apoiado na altura do coração. Esse registro vale mais que qualquer aferição isolada no consultório e frequentemente evita a impressão falsa de descontrole.
Mantenha a rotina das medicações até a orientação em contrário. Não é raro o paciente parar tudo dias antes "para limpar o organismo", o que é justamente o cenário que a equipe quer evitar.
Reduza o sal nas semanas que antecedem. É uma medida simples com efeito real sobre os níveis pressóricos.
Leve o registro das medidas e a lista de medicações para a consulta.
Avise se sua pressão vem oscilando muito, se você sente tontura ao levantar ou se teve episódios de pressão muito baixa. Isso é tão relevante quanto o descontrole para cima, porque quem oscila tende a instabilizar mais durante a anestesia.
E não encare um eventual adiamento como fracasso. Ajustar a pressão antes de operar é o que transforma um procedimento de risco maior em um procedimento de rotina.