Pré-operatório

Risco cirúrgico em quem tem pressão alta

Hipertensão é a condição mais comum no pré-operatório e raramente impede a cirurgia. O que importa não é ter pressão alta, é como ela está no momento de operar.

Risco cirúrgico em quem tem pressão alta — orientação com a Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista

Hipertensão controlada não impede uma cirurgia. Ela é a condição crônica mais frequente entre pacientes cirúrgicos, e milhões de procedimentos são feitos todos os anos em pessoas hipertensas sem qualquer intercorrência. O que preocupa a equipe não é o diagnóstico, é a pressão descontrolada no momento do procedimento e a variação brusca durante a anestesia. A avaliação existe para confirmar que o controle está adequado e que os órgãos não sofreram danos pela pressão ao longo do tempo.

Qual nível de pressão costuma adiar a cirurgia

Não existe um número absoluto que sirva para todos os casos, mas há faixas de referência usadas na prática.

Pressões abaixo de 180/110 mmHg, em pacientes sem sinais de sofrimento de órgão-alvo, geralmente não são motivo para adiar uma cirurgia eletiva. Muita gente se surpreende com isso, porque a suposição comum é que qualquer valor elevado impede operar.

A partir de 180/110 mmHg, a conduta habitual é adiar procedimentos eletivos e otimizar o tratamento antes. A razão é que, nessa faixa, a chance de variações intensas de pressão durante a anestesia aumenta, e essa instabilidade é o que traz risco.

Existe um detalhe que muda a leitura: a pressão medida no consultório costuma vir mais alta pela ansiedade da própria consulta, o chamado efeito do avental branco. Por isso, uma única medida elevada não define conduta. O médico pode repetir a aferição após alguns minutos de repouso, pedir medidas em casa ou solicitar um MAPA para entender o comportamento real ao longo do dia.

Mais importante que o número isolado é a presença de sinais de lesão em órgãos: alterações no eletrocardiograma, aumento do ventrículo esquerdo no ecocardiograma, comprometimento da função renal ou alterações no fundo de olho. Esses achados pesam mais na decisão do que a leitura daquele dia.

O que a avaliação verifica em quem é hipertenso

Há quanto tempo você tem hipertensão e como ela vem se comportando. Pressão alta de longa data e mal controlada tem impacto diferente de um diagnóstico recente e bem conduzido.

Quais medicações você usa, em que doses e horários. Essa informação orienta diretamente o que fazer na manhã da cirurgia.

Se existe repercussão em órgãos. O eletrocardiograma pode mostrar sobrecarga do ventrículo esquerdo. O ecocardiograma, quando indicado, mostra a espessura das paredes e a função de bombeamento. Exames de sangue avaliam a função renal.

Se há outras condições associadas. Hipertensão raramente vem sozinha: diabetes, colesterol alto, obesidade e apneia do sono são companhias frequentes, e o conjunto pesa mais que cada item isolado.

Sua capacidade funcional. A pergunta sobre subir escadas ou caminhar sem cansar continua sendo uma das informações mais valiosas, porque mostra na prática como o seu sistema cardiovascular responde ao esforço.

Devo tomar o remédio da pressão no dia da cirurgia?

Esta é a dúvida mais frequente, e a resposta padrão surpreende parte dos pacientes: na maioria dos casos, sim, com um pequeno gole de água, mesmo em jejum.

Suspender abruptamente medicações de pressão pode causar elevação de rebote, exatamente o oposto do que se deseja no dia do procedimento. Isso é particularmente verdadeiro para os betabloqueadores, cuja interrupção brusca pode provocar taquicardia e picos pressóricos.

A exceção mais comum são os inibidores da ECA, terminados em "pril" como enalapril, lisinopril e ramipril, e as sartanas, como losartana, valsartana e olmesartana. Alguns serviços orientam suspender a dose da manhã da cirurgia, porque essas classes podem contribuir para queda acentuada de pressão durante a anestesia. Essa conduta varia entre instituições e entre pacientes.

Diuréticos costumam ter a dose da manhã suspensa em muitos protocolos, pela combinação de jejum e efeito sobre volume e eletrólitos.

A conduta segura é objetiva: pergunte na consulta pré-anestésica quais remédios tomar na manhã da cirurgia, anote a resposta e leve a anotação com você. Não decida sozinho, nem por analogia com o que outra pessoa fez.

Como chegar bem preparado

Meça sua pressão em casa nas semanas anteriores e anote. Duas medidas por dia, uma pela manhã e outra à noite, por alguns dias, em repouso, com o braço apoiado na altura do coração. Esse registro vale mais que qualquer aferição isolada no consultório e frequentemente evita a impressão falsa de descontrole.

Mantenha a rotina das medicações até a orientação em contrário. Não é raro o paciente parar tudo dias antes "para limpar o organismo", o que é justamente o cenário que a equipe quer evitar.

Reduza o sal nas semanas que antecedem. É uma medida simples com efeito real sobre os níveis pressóricos.

Leve o registro das medidas e a lista de medicações para a consulta.

Avise se sua pressão vem oscilando muito, se você sente tontura ao levantar ou se teve episódios de pressão muito baixa. Isso é tão relevante quanto o descontrole para cima, porque quem oscila tende a instabilizar mais durante a anestesia.

E não encare um eventual adiamento como fracasso. Ajustar a pressão antes de operar é o que transforma um procedimento de risco maior em um procedimento de rotina.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas frequentes

Pressão alta impede a cirurgia?

Hipertensão controlada não impede. Pressões abaixo de 180/110 mmHg, em pacientes sem sinais de sofrimento de órgãos, geralmente não são motivo para adiar uma cirurgia eletiva. A partir desse patamar, a conduta habitual é adiar e otimizar o tratamento antes, porque aumenta a chance de variações intensas de pressão durante a anestesia.

Devo tomar o remédio da pressão no dia da cirurgia?

Na maioria dos casos sim, com um pequeno gole de água, mesmo em jejum. Suspender de forma abrupta pode causar elevação de rebote, especialmente com betabloqueadores. As exceções mais comuns são os inibidores da ECA (terminados em "pril") e as sartanas, que alguns serviços orientam suspender na manhã do procedimento. Confirme com o anestesista e anote a resposta.

Minha pressão sobe só no consultório. Isso atrapalha?

É o efeito do avental branco, e é comum. Por isso uma única medida elevada não define conduta. O médico pode repetir a aferição após repouso, pedir um registro de medidas feitas em casa ou solicitar um MAPA para avaliar o comportamento da pressão ao longo do dia. Leve suas medidas domiciliares anotadas para a consulta.

A cirurgia foi adiada por pressão alta. Quanto tempo até operar?

Depende de quanto a pressão precisa cair e da resposta ao ajuste do tratamento. Costuma-se falar em algumas semanas de estabilização, tempo suficiente para avaliar se o novo esquema de medicação funcionou. Meça em casa nesse período e leve o registro na reavaliação, porque ele documenta o controle melhor que uma medida isolada.

Preciso de ecocardiograma por ter pressão alta?

Não é rotina para todos. O ecocardiograma costuma ser indicado quando há hipertensão de longa data, alteração no eletrocardiograma sugerindo sobrecarga do ventrículo esquerdo, sopro na ausculta, sintomas como falta de ar ou quando a cirurgia é de maior porte. Em hipertenso bem controlado, sem sintomas e para procedimento de baixo risco, geralmente não é necessário.