Pré-operatório

Risco cirúrgico em idosos

A idade no documento importa menos que a capacidade funcional. Entenda o que a avaliação realmente mede e o que a família pode fazer antes da cirurgia.

Risco cirúrgico em idosos — orientação com a Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista

Idade, sozinha, não é contraindicação para cirurgia. Há pessoas de 80 anos que operam com risco menor que pessoas de 60, e o que explica essa diferença não é a data de nascimento: é a capacidade funcional, o número de doenças associadas e o grau de fragilidade. Um paciente de 85 anos que caminha, cuida da própria rotina e não tem doença descompensada costuma tolerar bem uma cirurgia. A avaliação em idosos existe para medir essas dimensões, não para julgar a idade.

O que realmente pesa na avaliação

Capacidade funcional é o item de maior peso. A pergunta clássica é se a pessoa consegue subir um lance de escada sem parar, ou caminhar alguns quarteirões em ritmo normal. Quem consegue demonstra uma reserva cardiovascular que se traduz em melhor tolerância à cirurgia. Quem não consegue, ou parou de conseguir recentemente, merece investigação antes.

Fragilidade é um conceito distinto de idade e de doença. Envolve perda de massa muscular, lentidão da marcha, fraqueza, perda de peso não intencional, exaustão e redução da atividade. O paciente frágil tem menos reserva para enfrentar o estresse cirúrgico, e essa é hoje uma das informações mais valorizadas na avaliação de idosos.

Número de doenças e de medicações. A polifarmácia, ou seja, o uso de muitos medicamentos simultâneos, aumenta o risco de interações e de efeitos adversos no perioperatório.

Função cognitiva. Alterações prévias de memória e orientação aumentam a chance de delirium pós-operatório, um estado de confusão aguda que é uma das complicações mais frequentes e mais subestimadas em idosos operados.

Função renal. Ela declina naturalmente com a idade, e isso afeta a eliminação de anestésicos e de várias medicações. É por isso que exames de sangue são especialmente importantes nessa faixa etária.

Delirium pós-operatório: o que a família precisa saber

Vale um espaço próprio porque é comum, assusta as famílias e quase nunca é explicado antes.

O delirium é um estado agudo de confusão que pode aparecer nas horas ou dias após a cirurgia. A pessoa fica desorientada, pode não reconhecer onde está, apresentar agitação ou, ao contrário, ficar excessivamente quieta e sonolenta. Costuma oscilar ao longo do dia, piorando à noite.

É frequentemente confundido com "a anestesia que afetou a cabeça" ou com o início de uma demência. Na maior parte dos casos, é reversível.

Alguns cuidados reduzem a chance de acontecer: manter óculos e aparelho auditivo disponíveis logo após a cirurgia, garantir que a pessoa saiba onde está e que dia é, preservar o ciclo de sono com luz durante o dia e escuridão à noite, incentivar a mobilização precoce e manter a hidratação adequada.

A presença de um familiar conhecido no pós-operatório imediato ajuda de forma concreta. Não é apenas conforto emocional: é uma medida com efeito real sobre a orientação do paciente.

Se aparecer confusão, avise a equipe. Existem causas tratáveis frequentes por trás, como dor mal controlada, infecção urinária, desidratação, retenção de urina ou efeito de alguma medicação.

Exames: mais nem sempre é melhor

Existe uma tendência natural de pedir muitos exames em idosos, na suposição de que isso aumenta a segurança. Nem sempre é assim.

Exames sem indicação clínica geram achados incidentais que levam a novas investigações, adiam a cirurgia e aumentam a ansiedade, muitas vezes sem alterar a conduta final. Em uma pessoa de 80 anos, é bastante provável encontrar alguma alteração em qualquer exame realizado. A questão é se aquele achado muda alguma coisa no plano cirúrgico.

O que costuma ser indicado: eletrocardiograma, exames de sangue incluindo função renal, hemograma e eletrólitos, e avaliação da capacidade funcional na conversa clínica.

O que entra conforme o caso: ecocardiograma se houver sopro, sintomas, alteração no eletrocardiograma ou histórico cardíaco relevante; radiografia de tórax em pacientes com doença pulmonar ou para cirurgias torácicas e abdominais maiores; testes de esforço apenas quando há suspeita específica.

Uma pergunta útil quando muitos exames são solicitados: o resultado deste exame mudaria a decisão sobre operar ou sobre como operar? Se a resposta for não, vale conversar sobre a real necessidade.

O que a família pode fazer antes

Organize a lista completa de medicações, com nomes, doses e horários. Em idosos que usam muitos remédios, essa lista é frequentemente a informação mais valiosa da consulta. Fotografe as caixas se for mais fácil.

Leve o histórico médico organizado: cirurgias anteriores, internações recentes, exames dos últimos meses, laudos de cateterismo, stent ou marca-passo.

Estimule a movimentação nas semanas anteriores. Mesmo caminhadas curtas e regulares melhoram a condição no pré-operatório. Chegar à cirurgia depois de semanas parado piora a recuperação.

Atenção à alimentação. Idosos com baixa ingestão de proteína cicatrizam pior e recuperam massa muscular com mais dificuldade.

Prepare o pós-operatório antes da cirurgia: quem vai acompanhar, como será o transporte, se a casa precisa de adaptação como retirar tapetes soltos e melhorar a iluminação, e quem administrará as medicações.

Combine com a equipe quem recebe as informações, para evitar versões diferentes circulando entre familiares.

Por fim, converse sobre objetivos. Em pacientes muito idosos ou frágeis, a pergunta relevante nem sempre é apenas "dá para operar", mas também "o que se espera ganhar com esta cirurgia e o que ela vai exigir da recuperação". Essa conversa, feita antes e com franqueza, costuma ser a mais importante de todo o processo.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas frequentes

Existe idade máxima para fazer cirurgia?

Não existe um limite de idade que contraindique cirurgia. O que pesa é a capacidade funcional, o número de doenças associadas e o grau de fragilidade. Uma pessoa de 85 anos que caminha, cuida da própria rotina e não tem doença descompensada costuma tolerar bem um procedimento, muitas vezes melhor que alguém mais jovem com várias doenças.

O que é fragilidade e por que ela importa tanto?

Fragilidade é um estado de reserva reduzida, diferente de idade e de doença. Envolve perda de massa muscular, marcha lenta, fraqueza, perda de peso não intencional e redução da atividade. O paciente frágil tem menos capacidade de enfrentar o estresse da cirurgia, e por isso a fragilidade é hoje um dos itens mais valorizados na avaliação de risco em idosos.

O que é delirium pós-operatório?

É um estado agudo de confusão que pode surgir nas horas ou dias após a cirurgia, com desorientação, agitação ou sonolência excessiva, geralmente pior à noite. É comum em idosos e na maioria das vezes reversível. Manter óculos e aparelho auditivo por perto, preservar o ciclo de sono, mobilizar cedo e ter um familiar conhecido por perto reduzem a chance de acontecer.

Idoso precisa de mais exames antes de operar?

Não necessariamente. Exames sem indicação clínica geram achados incidentais que adiam a cirurgia sem mudar a conduta. O que costuma ser indicado é eletrocardiograma, exames de sangue com função renal e a avaliação da capacidade funcional. Ecocardiograma e outros entram conforme sintomas e achados. Uma pergunta útil: este exame mudaria a decisão sobre operar?

Como a família pode ajudar na preparação?

Organizando a lista completa de medicações com doses e horários, reunindo exames e laudos anteriores, estimulando caminhadas nas semanas que antecedem, cuidando da alimentação com proteína adequada e planejando o pós-operatório: quem acompanha, transporte, adaptações na casa e quem administra os remédios.