Idade, sozinha, não é contraindicação para cirurgia. Há pessoas de 80 anos que operam com risco menor que pessoas de 60, e o que explica essa diferença não é a data de nascimento: é a capacidade funcional, o número de doenças associadas e o grau de fragilidade. Um paciente de 85 anos que caminha, cuida da própria rotina e não tem doença descompensada costuma tolerar bem uma cirurgia. A avaliação em idosos existe para medir essas dimensões, não para julgar a idade.
O que realmente pesa na avaliação
Capacidade funcional é o item de maior peso. A pergunta clássica é se a pessoa consegue subir um lance de escada sem parar, ou caminhar alguns quarteirões em ritmo normal. Quem consegue demonstra uma reserva cardiovascular que se traduz em melhor tolerância à cirurgia. Quem não consegue, ou parou de conseguir recentemente, merece investigação antes.
Fragilidade é um conceito distinto de idade e de doença. Envolve perda de massa muscular, lentidão da marcha, fraqueza, perda de peso não intencional, exaustão e redução da atividade. O paciente frágil tem menos reserva para enfrentar o estresse cirúrgico, e essa é hoje uma das informações mais valorizadas na avaliação de idosos.
Número de doenças e de medicações. A polifarmácia, ou seja, o uso de muitos medicamentos simultâneos, aumenta o risco de interações e de efeitos adversos no perioperatório.
Função cognitiva. Alterações prévias de memória e orientação aumentam a chance de delirium pós-operatório, um estado de confusão aguda que é uma das complicações mais frequentes e mais subestimadas em idosos operados.
Função renal. Ela declina naturalmente com a idade, e isso afeta a eliminação de anestésicos e de várias medicações. É por isso que exames de sangue são especialmente importantes nessa faixa etária.
Delirium pós-operatório: o que a família precisa saber
Vale um espaço próprio porque é comum, assusta as famílias e quase nunca é explicado antes.
O delirium é um estado agudo de confusão que pode aparecer nas horas ou dias após a cirurgia. A pessoa fica desorientada, pode não reconhecer onde está, apresentar agitação ou, ao contrário, ficar excessivamente quieta e sonolenta. Costuma oscilar ao longo do dia, piorando à noite.
É frequentemente confundido com "a anestesia que afetou a cabeça" ou com o início de uma demência. Na maior parte dos casos, é reversível.
Alguns cuidados reduzem a chance de acontecer: manter óculos e aparelho auditivo disponíveis logo após a cirurgia, garantir que a pessoa saiba onde está e que dia é, preservar o ciclo de sono com luz durante o dia e escuridão à noite, incentivar a mobilização precoce e manter a hidratação adequada.
A presença de um familiar conhecido no pós-operatório imediato ajuda de forma concreta. Não é apenas conforto emocional: é uma medida com efeito real sobre a orientação do paciente.
Se aparecer confusão, avise a equipe. Existem causas tratáveis frequentes por trás, como dor mal controlada, infecção urinária, desidratação, retenção de urina ou efeito de alguma medicação.
Exames: mais nem sempre é melhor
Existe uma tendência natural de pedir muitos exames em idosos, na suposição de que isso aumenta a segurança. Nem sempre é assim.
Exames sem indicação clínica geram achados incidentais que levam a novas investigações, adiam a cirurgia e aumentam a ansiedade, muitas vezes sem alterar a conduta final. Em uma pessoa de 80 anos, é bastante provável encontrar alguma alteração em qualquer exame realizado. A questão é se aquele achado muda alguma coisa no plano cirúrgico.
O que costuma ser indicado: eletrocardiograma, exames de sangue incluindo função renal, hemograma e eletrólitos, e avaliação da capacidade funcional na conversa clínica.
O que entra conforme o caso: ecocardiograma se houver sopro, sintomas, alteração no eletrocardiograma ou histórico cardíaco relevante; radiografia de tórax em pacientes com doença pulmonar ou para cirurgias torácicas e abdominais maiores; testes de esforço apenas quando há suspeita específica.
Uma pergunta útil quando muitos exames são solicitados: o resultado deste exame mudaria a decisão sobre operar ou sobre como operar? Se a resposta for não, vale conversar sobre a real necessidade.
O que a família pode fazer antes
Organize a lista completa de medicações, com nomes, doses e horários. Em idosos que usam muitos remédios, essa lista é frequentemente a informação mais valiosa da consulta. Fotografe as caixas se for mais fácil.
Leve o histórico médico organizado: cirurgias anteriores, internações recentes, exames dos últimos meses, laudos de cateterismo, stent ou marca-passo.
Estimule a movimentação nas semanas anteriores. Mesmo caminhadas curtas e regulares melhoram a condição no pré-operatório. Chegar à cirurgia depois de semanas parado piora a recuperação.
Atenção à alimentação. Idosos com baixa ingestão de proteína cicatrizam pior e recuperam massa muscular com mais dificuldade.
Prepare o pós-operatório antes da cirurgia: quem vai acompanhar, como será o transporte, se a casa precisa de adaptação como retirar tapetes soltos e melhorar a iluminação, e quem administrará as medicações.
Combine com a equipe quem recebe as informações, para evitar versões diferentes circulando entre familiares.
Por fim, converse sobre objetivos. Em pacientes muito idosos ou frágeis, a pergunta relevante nem sempre é apenas "dá para operar", mas também "o que se espera ganhar com esta cirurgia e o que ela vai exigir da recuperação". Essa conversa, feita antes e com franqueza, costuma ser a mais importante de todo o processo.