Pré-operatório

Quais remédios precisam ser suspensos antes da cirurgia

A dúvida que mais gera erro perigoso no pré-operatório. Cada classe tem uma lógica diferente, e parar tudo por conta própria é o pior caminho.

Quais remédios precisam ser suspensos antes da cirurgia — orientação com a Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista

A regra mais importante deste texto vem antes de qualquer lista: não suspenda nenhuma medicação por conta própria. Parar um anticoagulante, um antiagregante ou um remédio de pressão sem orientação pode causar infarto, AVC ou trombose, e isso acontece com mais frequência do que se imagina. A decisão sobre o que manter e o que suspender é sempre conjunta entre o médico que prescreveu, o cirurgião e o anestesista. O que este guia faz é explicar a lógica de cada classe, para você conversar com sua equipe de forma informada.

Antiagregantes: AAS e clopidogrel

O ácido acetilsalicílico (AAS, aspirina em dose baixa) e o clopidogrel reduzem a agregação das plaquetas. São prescritos para prevenir infarto e AVC, e principalmente para manter stents desobstruídos.

Aqui existe um equilíbrio delicado. Mantê-los aumenta um pouco o sangramento cirúrgico. Suspendê-los aumenta o risco de trombose, que em quem tem stent recente pode ser fatal.

Em cirurgias com sangramento pequeno, como catarata, procedimentos dermatológicos e muitos atendimentos odontológicos, é comum manter o AAS. Em cirurgias de maior porte, ou naquelas em que um sangramento seria especialmente perigoso, como neurocirurgia e cirurgia de coluna, a suspensão costuma ser considerada.

Quem tem stent merece atenção especial. Existe um período após o implante em que a dupla antiagregação não deve ser interrompida, e cirurgias eletivas costumam ser adiadas até que esse período passe. Se você tem stent, informe isso na primeira frase da consulta, junto com a data em que foi colocado e o tipo, se souber.

Quando a suspensão é indicada, ela costuma acontecer alguns dias antes do procedimento, com o intervalo definido pela equipe conforme a medicação e o tipo de cirurgia.

Anticoagulantes

São medicações que atuam na cascata da coagulação, indicadas em fibrilação atrial, trombose venosa, embolia pulmonar e portadores de prótese valvar.

A varfarina é o anticoagulante mais antigo e exige controle periódico do INR por exame de sangue. Quando precisa ser suspensa, isso costuma acontecer alguns dias antes, e em pacientes de alto risco trombótico pode ser necessária a chamada ponte com heparina, em que outro anticoagulante de ação curta cobre o intervalo.

Os anticoagulantes orais diretos, como rivaroxabana, apixabana, edoxabana e dabigatrana, têm ação mais previsível e não exigem controle de INR. O intervalo de suspensão costuma ser mais curto e depende bastante da função renal, porque a eliminação de vários deles passa pelos rins.

Esse é o grupo em que a suspensão por conta própria é mais perigosa. Um paciente com fibrilação atrial que interrompe o anticoagulante alguns dias antes sem cobertura adequada está exposto a risco real de AVC.

Se você usa anticoagulante, leve o nome exato, a dose, o horário e, se for varfarina, os últimos resultados de INR.

Remédios de pressão e do coração

Ao contrário do que muita gente supõe, a maioria das medicações cardiovasculares é mantida, inclusive no dia da cirurgia, com um gole de água.

Os betabloqueadores costumam ser mantidos, e sua suspensão abrupta é desaconselhada porque pode causar taquicardia de rebote e elevação da pressão.

Os bloqueadores de canal de cálcio e a maior parte dos diuréticos seguem a orientação da equipe, com ajustes pontuais.

Os inibidores da ECA, terminados em "pril", e os bloqueadores do receptor de angiotensina, terminados em "sartana", são a exceção mais frequente: alguns serviços orientam suspender a dose da manhã da cirurgia, pela chance de queda de pressão durante a anestesia. Essa conduta varia entre instituições.

As estatinas, do colesterol, costumam ser mantidas.

A orientação prática: pergunte explicitamente ao anestesista quais remédios tomar na manhã da cirurgia e anote a resposta. Essa é uma das perguntas mais úteis da consulta pré-anestésica.

Diabetes, incluindo Ozempic e Mounjaro

As medicações do diabetes exigem ajuste porque você ficará em jejum, e o risco de hipoglicemia durante a cirurgia é real.

A metformina e os demais antidiabéticos orais costumam ter a dose da manhã suspensa. A insulina quase sempre precisa de ajuste, com esquema definido individualmente conforme o tipo e o horário.

Merece destaque o grupo dos análogos de GLP-1, como semaglutida (Ozempic, Wegovy), liraglutida (Saxenda, Victoza) e tirzepatida (Mounjaro), hoje muito usados também para perda de peso.

Essas medicações retardam o esvaziamento do estômago. Isso significa que pode haver alimento no estômago mesmo após o jejum habitual, aumentando o risco de aspiração durante a anestesia, uma complicação grave. Por isso as sociedades de anestesiologia passaram a orientar cuidados específicos, que podem incluir a suspensão da medicação com antecedência ou um jejum prolongado.

Informe o uso dessas medicações mesmo que você as use apenas para emagrecer e não tenha diabetes. Muita gente não menciona porque não considera "remédio de doença", e essa omissão tem consequência direta na segurança da anestesia. O intervalo de suspensão é definido pelo anestesista.

Suplementos, fitoterápicos e anti-inflamatórios

É a categoria mais esquecida na hora de listar o que se usa, e várias substâncias aqui interferem na coagulação.

Ginkgo biloba, alho em cápsulas, ginseng, gengibre em alta dose, vitamina E e óleo de peixe (ômega 3) em doses elevadas podem aumentar o sangramento. Costuma-se orientar a suspensão alguns dias antes, com o prazo definido pela equipe.

Anti-inflamatórios não esteroidais, como ibuprofeno, diclofenaco e naproxeno, também afetam plaquetas e função renal, e frequentemente são suspensos no pré-operatório.

Fitoterápicos para ansiedade e sono, como valeriana e kava, podem potencializar o efeito sedativo da anestesia.

Regra prática: se você engole, entra na lista. Chá, suplemento de academia, vitamina, manipulado, canabidiol, medicação para emagrecer. Não filtre pelo que você considera "remédio de verdade". Leve tudo, ou fotografe as embalagens e mostre na consulta.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas frequentes

Posso parar meus remédios sozinho antes da cirurgia?

Não. Suspender medicação por conta própria é um dos erros mais perigosos do pré-operatório. Parar anticoagulante, antiagregante ou remédio de pressão sem orientação pode causar infarto, AVC ou trombose. A decisão sobre o que manter e o que suspender é sempre conjunta entre o médico que prescreveu, o cirurgião e o anestesista.

Preciso parar o AAS antes de operar?

Depende do tipo de cirurgia e do motivo pelo qual você usa. Em procedimentos com pouco sangramento, como catarata e muitos atendimentos odontológicos, é comum manter. Em cirurgias de maior porte ou em que um sangramento seria especialmente perigoso, a suspensão costuma ser considerada. Quem tem stent precisa de avaliação específica, porque interromper pode causar trombose.

Tomo Ozempic ou Mounjaro. Preciso avisar antes da cirurgia?

Sim, sempre, mesmo que você use apenas para emagrecer e não tenha diabetes. Essas medicações retardam o esvaziamento do estômago, o que pode deixar alimento no estômago mesmo após o jejum habitual e aumentar o risco de aspiração durante a anestesia. O anestesista define se é preciso suspender a medicação com antecedência ou prolongar o jejum.

Devo tomar o remédio da pressão na manhã da cirurgia?

Na maioria das vezes sim, com um gole de água. A exceção mais comum são os inibidores da ECA (terminados em "pril") e as sartanas, que alguns serviços orientam suspender na manhã do procedimento pela chance de queda de pressão durante a anestesia. Pergunte explicitamente ao anestesista quais remédios tomar naquela manhã e anote a resposta.

Suplementos e chás também precisam ser suspensos?

Vários sim. Ginkgo biloba, alho em cápsulas, ginseng, vitamina E e ômega 3 em doses altas podem aumentar o sangramento, e fitoterápicos para sono podem potencializar a sedação. A regra prática é simples: se você engole, entra na lista. Leve tudo o que usa para a consulta ou fotografe as embalagens.

Tenho stent. Posso fazer cirurgia eletiva?

Pode, mas o momento importa. Existe um período após o implante do stent em que a dupla antiagregação não deve ser interrompida, e cirurgias eletivas costumam ser adiadas até que esse período passe. Informe que tem stent logo no início da consulta, com a data do implante e o tipo, se souber. Em cirurgias de urgência, a equipe faz a análise caso a caso.