A cirurgia bariátrica exige avaliação cardiológica pré-operatória em praticamente todos os casos. A razão não é o porte do procedimento em si, que hoje é feito por videolaparoscopia na maioria das vezes, mas o perfil de quem opera: a obesidade costuma vir acompanhada de hipertensão, diabetes, apneia do sono e alterações no coração que precisam ser conhecidas antes da anestesia. Essa avaliação faz parte do protocolo multidisciplinar exigido para a liberação da cirurgia.
Por que a avaliação é mais detalhada nesse caso
Na maioria das cirurgias, o cardiologista avalia o risco de complicações do coração diante daquele procedimento. Na bariátrica, existe uma camada a mais: a obesidade em si altera o funcionamento cardiovascular, e essas alterações precisam ser mapeadas.
O excesso de peso aumenta o volume de sangue que o coração precisa bombear, o que com o tempo pode espessar as paredes do ventrículo esquerdo. Também eleva a chance de hipertensão, de diabetes e de alterações no colesterol, que são fatores de risco cardiovascular por si só.
Some a isso a apneia obstrutiva do sono, muito frequente em quem tem obesidade e muitas vezes não diagnosticada. Ela tem impacto direto na anestesia e no pós-operatório imediato, e é uma das razões pelas quais o anestesista quer saber com antecedência.
Por isso a avaliação pré-bariátrica costuma incluir exames que não seriam pedidos numa cirurgia de mesmo porte em outro paciente. Não é excesso de zelo: é adequação ao perfil.
O que costuma ser avaliado
Histórico clínico completo: tempo de obesidade, tentativas anteriores de tratamento, doenças associadas, medicações em uso, histórico familiar de doença cardíaca e sintomas como falta de ar, palpitação, dor no peito ou inchaço nas pernas.
Capacidade funcional: o médico vai perguntar o que você consegue fazer sem cansar, como subir um lance de escada ou caminhar alguns quarteirões. Parece uma conversa informal, mas é uma das informações mais úteis da avaliação, porque traduz na prática como o seu coração responde ao esforço.
Pressão arterial: medida com manguito de tamanho adequado ao braço. Esse detalhe importa, porque manguito pequeno em braço largo superestima a pressão.
Eletrocardiograma: exame básico, quase sempre solicitado.
Ecocardiograma: comum nesse contexto, porque avalia a espessura das paredes do coração, o funcionamento das válvulas e a capacidade de bombeamento.
Exames de sangue: glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal e eletrólitos.
Investigação de apneia do sono: pode ser solicitada polissonografia quando há sinais como ronco intenso, pausas na respiração durante o sono relatadas por alguém ou sonolência excessiva durante o dia.
Testes adicionais: conforme os achados, podem entrar teste ergométrico, Holter, MAPA ou exames de imagem mais específicos.
O que pode adiar a liberação
Algumas situações fazem o cardiologista pedir mais tempo antes de liberar. Conhecê-las ajuda a encarar o adiamento como parte do processo, e não como um obstáculo.
Pressão arterial descontrolada: costuma exigir ajuste de medicação e um período de estabilização antes da cirurgia.
Apneia do sono grave não tratada: em geral se busca iniciar o tratamento antes do procedimento, o que melhora bastante a segurança na anestesia e no pós-operatório.
Alteração no eletrocardiograma ou no ecocardiograma que precise de investigação.
Sintomas cardiovasculares não esclarecidos: dor no peito aos esforços, falta de ar desproporcional, palpitações frequentes ou episódios de desmaio.
Diabetes muito descompensado: costuma exigir ajuste antes de operar, porque interfere na cicatrização e no risco de infecção.
Vale lembrar que o objetivo do protocolo da bariátrica não é criar barreiras, e sim garantir que você chegue à cirurgia na melhor condição possível. Cada pendência resolvida antes é uma complicação a menos depois.
Depois da cirurgia: o coração continua sendo acompanhado
Um ponto que costuma passar despercebido: a perda de peso após a bariátrica muda o funcionamento do organismo, e as medicações precisam acompanhar essa mudança.
É comum que doses de anti-hipertensivos precisem ser reduzidas ao longo dos meses seguintes, à medida que a pressão melhora com a perda de peso. O mesmo vale para medicações do diabetes e para as do colesterol.
Isso não significa suspender nada por conta própria. Significa manter o acompanhamento, porque continuar tomando a mesma dose de um anti-hipertensivo depois de perder peso significativo pode levar a episódios de pressão baixa, tontura e quedas.
O acompanhamento cardiológico no pós-operatório também é a oportunidade de reavaliar aquelas alterações identificadas antes da cirurgia. Muitas delas melhoram de forma expressiva com a perda de peso, e ver essa evolução documentada em exames é um dos retornos mais concretos do procedimento.