Pré-operatório

Risco cirúrgico para cirurgia bariátrica

A avaliação cardiológica é uma das etapas do protocolo multidisciplinar da bariátrica. Entenda o que é analisado e por que ela costuma ser mais detalhada que em outras cirurgias.

Risco cirúrgico para cirurgia bariátrica — orientação com a Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista

A cirurgia bariátrica exige avaliação cardiológica pré-operatória em praticamente todos os casos. A razão não é o porte do procedimento em si, que hoje é feito por videolaparoscopia na maioria das vezes, mas o perfil de quem opera: a obesidade costuma vir acompanhada de hipertensão, diabetes, apneia do sono e alterações no coração que precisam ser conhecidas antes da anestesia. Essa avaliação faz parte do protocolo multidisciplinar exigido para a liberação da cirurgia.

Por que a avaliação é mais detalhada nesse caso

Na maioria das cirurgias, o cardiologista avalia o risco de complicações do coração diante daquele procedimento. Na bariátrica, existe uma camada a mais: a obesidade em si altera o funcionamento cardiovascular, e essas alterações precisam ser mapeadas.

O excesso de peso aumenta o volume de sangue que o coração precisa bombear, o que com o tempo pode espessar as paredes do ventrículo esquerdo. Também eleva a chance de hipertensão, de diabetes e de alterações no colesterol, que são fatores de risco cardiovascular por si só.

Some a isso a apneia obstrutiva do sono, muito frequente em quem tem obesidade e muitas vezes não diagnosticada. Ela tem impacto direto na anestesia e no pós-operatório imediato, e é uma das razões pelas quais o anestesista quer saber com antecedência.

Por isso a avaliação pré-bariátrica costuma incluir exames que não seriam pedidos numa cirurgia de mesmo porte em outro paciente. Não é excesso de zelo: é adequação ao perfil.

O que costuma ser avaliado

Histórico clínico completo: tempo de obesidade, tentativas anteriores de tratamento, doenças associadas, medicações em uso, histórico familiar de doença cardíaca e sintomas como falta de ar, palpitação, dor no peito ou inchaço nas pernas.

Capacidade funcional: o médico vai perguntar o que você consegue fazer sem cansar, como subir um lance de escada ou caminhar alguns quarteirões. Parece uma conversa informal, mas é uma das informações mais úteis da avaliação, porque traduz na prática como o seu coração responde ao esforço.

Pressão arterial: medida com manguito de tamanho adequado ao braço. Esse detalhe importa, porque manguito pequeno em braço largo superestima a pressão.

Eletrocardiograma: exame básico, quase sempre solicitado.

Ecocardiograma: comum nesse contexto, porque avalia a espessura das paredes do coração, o funcionamento das válvulas e a capacidade de bombeamento.

Exames de sangue: glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico, função renal e eletrólitos.

Investigação de apneia do sono: pode ser solicitada polissonografia quando há sinais como ronco intenso, pausas na respiração durante o sono relatadas por alguém ou sonolência excessiva durante o dia.

Testes adicionais: conforme os achados, podem entrar teste ergométrico, Holter, MAPA ou exames de imagem mais específicos.

O que pode adiar a liberação

Algumas situações fazem o cardiologista pedir mais tempo antes de liberar. Conhecê-las ajuda a encarar o adiamento como parte do processo, e não como um obstáculo.

Pressão arterial descontrolada: costuma exigir ajuste de medicação e um período de estabilização antes da cirurgia.

Apneia do sono grave não tratada: em geral se busca iniciar o tratamento antes do procedimento, o que melhora bastante a segurança na anestesia e no pós-operatório.

Alteração no eletrocardiograma ou no ecocardiograma que precise de investigação.

Sintomas cardiovasculares não esclarecidos: dor no peito aos esforços, falta de ar desproporcional, palpitações frequentes ou episódios de desmaio.

Diabetes muito descompensado: costuma exigir ajuste antes de operar, porque interfere na cicatrização e no risco de infecção.

Vale lembrar que o objetivo do protocolo da bariátrica não é criar barreiras, e sim garantir que você chegue à cirurgia na melhor condição possível. Cada pendência resolvida antes é uma complicação a menos depois.

Depois da cirurgia: o coração continua sendo acompanhado

Um ponto que costuma passar despercebido: a perda de peso após a bariátrica muda o funcionamento do organismo, e as medicações precisam acompanhar essa mudança.

É comum que doses de anti-hipertensivos precisem ser reduzidas ao longo dos meses seguintes, à medida que a pressão melhora com a perda de peso. O mesmo vale para medicações do diabetes e para as do colesterol.

Isso não significa suspender nada por conta própria. Significa manter o acompanhamento, porque continuar tomando a mesma dose de um anti-hipertensivo depois de perder peso significativo pode levar a episódios de pressão baixa, tontura e quedas.

O acompanhamento cardiológico no pós-operatório também é a oportunidade de reavaliar aquelas alterações identificadas antes da cirurgia. Muitas delas melhoram de forma expressiva com a perda de peso, e ver essa evolução documentada em exames é um dos retornos mais concretos do procedimento.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas frequentes

Toda cirurgia bariátrica precisa de avaliação cardiológica?

Na prática, sim. A avaliação cardiológica faz parte do protocolo multidisciplinar exigido para a liberação da cirurgia bariátrica, junto com as avaliações nutricional, psicológica e endocrinológica. A razão é o perfil de quem opera: a obesidade costuma vir acompanhada de hipertensão, diabetes e apneia do sono, que precisam ser conhecidas antes da anestesia.

Quais exames o cardiologista pede antes da bariátrica?

Eletrocardiograma e exames de sangue são quase sempre solicitados. O ecocardiograma é frequente nesse contexto, porque avalia a espessura das paredes do coração e a função de bombeamento. Conforme os achados e os sintomas, podem entrar teste ergométrico, Holter, MAPA ou polissonografia para investigar apneia do sono.

Pressão alta impede a cirurgia bariátrica?

Não impede, mas pressão descontrolada costuma adiar. O caminho habitual é ajustar a medicação e aguardar um período de estabilização antes de operar. A hipertensão bem controlada não é obstáculo, e é comum que ela melhore de forma significativa após a perda de peso.

Apneia do sono atrapalha a liberação para a bariátrica?

A apneia do sono não tratada, especialmente nos casos graves, costuma levar o médico a recomendar o início do tratamento antes da cirurgia. Isso porque ela tem impacto direto na anestesia e no pós-operatório imediato. Tratada, deixa de ser um fator de risco relevante para o procedimento.

Preciso continuar com o cardiologista depois da bariátrica?

Sim, e por um motivo prático: a perda de peso muda o funcionamento do organismo e as doses das medicações precisam acompanhar essa mudança. Anti-hipertensivos, remédios do diabetes e do colesterol costumam precisar de ajuste ao longo dos meses. Manter a mesma dose após perder peso significativo pode causar pressão baixa, tontura e quedas.