Diabetes não impede uma cirurgia. O que muda é o preparo, porque a glicemia mal controlada tem efeito direto em três frentes: aumenta o risco de infecção da ferida, atrasa a cicatrização e eleva a chance de complicações cardiovasculares. Existe ainda um motivo específico para o cardiologista entrar em cena: o diabetes de longa data pode causar doença nas artérias do coração de forma silenciosa, sem a dor no peito que serviria de aviso.
Por que o cardiologista avalia o diabético com mais atenção
O diabetes é considerado um fator de risco cardiovascular maior, no mesmo patamar de peso que a hipertensão e o colesterol elevado. Mas há uma particularidade que merece ser conhecida.
O diabetes de longa data pode causar neuropatia autonômica, que compromete os nervos responsáveis por transmitir a sensação de dor vinda do coração. O resultado é que uma pessoa com diabetes pode ter obstrução importante nas artérias coronárias sem sentir a dor no peito clássica.
Isso tem consequência prática direta: em vez de dor, o sintoma pode aparecer como falta de ar aos esforços, cansaço desproporcional, náusea ou sudorese. São queixas fáceis de atribuir a outras causas, e por isso o médico investiga com mais cuidado nesse grupo.
Se você tem diabetes há muitos anos e notou que se cansa mais do que costumava em atividades simples, mencione isso na consulta mesmo que não tenha dor no peito. É exatamente a informação que interessa.
Qual controle é esperado antes de operar
Não existe um número único que sirva para todos os pacientes e todas as cirurgias, mas há referências usadas na prática.
A hemoglobina glicada é o exame mais valorizado, porque mostra a média do controle nos últimos dois a três meses, e não apenas o valor de um dia. É comum que a equipe queira ver esse resultado antes de uma cirurgia eletiva.
Valores muito elevados de glicada costumam levar ao adiamento de procedimentos eletivos, com um período de ajuste do tratamento antes. Isso não é burocracia: o controle nas semanas anteriores tem efeito documentado sobre infecção e cicatrização.
A glicemia no dia da cirurgia também é acompanhada, e valores muito altos ou muito baixos podem suspender o procedimento naquela data.
Em cirurgias de urgência, a lógica muda: opera-se com o controle possível, e o ajuste acontece no perioperatório, porque adiar traria risco maior.
Vale um ponto de tranquilidade: a maioria das pessoas com diabetes razoavelmente controlado opera na data prevista, sem qualquer alteração no plano.
O que fazer com as medicações
Esta é a parte que gera mais dúvida, porque envolve jejum e risco de hipoglicemia. As orientações abaixo são a lógica geral; o esquema do seu caso é definido pela equipe.
Metformina e antidiabéticos orais costumam ter a dose da manhã da cirurgia suspensa, justamente por causa do jejum.
Insulina quase sempre precisa de ajuste, e o esquema varia bastante conforme o tipo, se é de ação lenta ou rápida, e o horário do procedimento. Não improvise: peça orientação escrita e leve a anotação.
Inibidores de SGLT2, terminados em "gliflozina" como dapagliflozina e empagliflozina, merecem atenção especial. Eles costumam ser suspensos alguns dias antes por risco de uma complicação chamada cetoacidose euglicêmica, que é perigosa justamente por acontecer com a glicemia aparentemente normal.
Análogos de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, retardam o esvaziamento do estômago e podem aumentar o risco de aspiração na anestesia. Informe o uso mesmo que seja apenas para perda de peso.
Leve seu glicosímetro e o registro das medições para a consulta. Esse histórico vale mais que qualquer estimativa de memória e ajuda a mostrar como a glicemia se comporta no seu dia a dia.
Como se preparar nas semanas anteriores
Meça a glicemia com mais frequência e anote. O registro dá à equipe uma leitura muito melhor que um exame isolado.
Leve o resultado da hemoglobina glicada mais recente. Se for antigo, pergunte se vale repetir.
Avise sobre episódios de hipoglicemia, especialmente se acontecem sem aviso. Quem não sente os sinais de alerta da hipoglicemia precisa de esquema mais cauteloso no jejum.
Relate qualquer ferida que demore a cicatrizar, principalmente nos pés. É informação relevante sobre a circulação e sobre o risco de infecção.
Mencione formigamento, dormência ou queimação nos pés, sinais de neuropatia que também orientam a avaliação.
Combine antecipadamente o horário da cirurgia. Sempre que possível, pacientes com diabetes são programados para o início do dia, para reduzir o tempo de jejum. Vale pedir isso ao cirurgião.
E não faça restrição alimentar drástica por conta própria nos dias que antecedem, na tentativa de "melhorar os números". Isso desestabiliza o controle e aumenta o risco de hipoglicemia no jejum pré-operatório.