A cirurgia de catarata é classificada como de baixo risco cardiovascular. Ela é rápida, feita quase sempre com anestesia local ou tópica associada a sedação leve, sem grande perda de sangue e sem o estresse circulatório de uma cirurgia maior. Ainda assim, é comum que o oftalmologista ou o anestesista peçam a avaliação. O motivo raramente é a cirurgia em si: é o perfil de quem opera, já que a catarata é mais frequente a partir dos 60 anos, faixa em que hipertensão, diabetes e arritmias são comuns.
Por que pedem avaliação numa cirurgia de baixo risco
O risco de uma cirurgia tem dois componentes: o do procedimento e o do paciente. Na catarata, o primeiro é baixo. O segundo é o que interessa.
A idade média de quem faz a cirurgia significa que boa parte dos pacientes tem hipertensão, diabetes, alguma arritmia ou histórico cardíaco. Muitos usam medicações que precisam ser conhecidas antes do procedimento, especialmente anticoagulantes e antiagregantes.
Existe ainda uma razão prática que raramente é explicada ao paciente: a cirurgia de catarata exige que a pessoa fique deitada e imóvel por alguns minutos, com o rosto parcialmente coberto. Quem tem falta de ar ao deitar, dor lombar intensa, tremor importante ou ansiedade acentuada pode ter dificuldade nessa posição. Saber disso antes permite planejar a sedação de forma adequada.
Em muitos serviços, o pedido de avaliação para catarata é protocolo institucional, aplicado a todos os pacientes acima de determinada idade, independentemente do quadro clínico. Não significa que exista suspeita de problema no seu caso.
O que costuma ser avaliado
Em pessoas estáveis, sem sintomas novos, a avaliação para catarata costuma ser bem mais simples do que muita gente imagina.
O foco fica em três perguntas. A primeira: sua condição cardiovascular está estável, sem sintomas novos desde a última consulta? A segunda: sua pressão está controlada? A terceira, e mais importante nesse contexto: quais medicações você usa, especialmente as que interferem na coagulação.
O eletrocardiograma costuma ser solicitado, e em quem já tem um recente e permanece estável, é frequente que o exame anterior seja aceito.
Exames mais elaborados como ecocardiograma, teste ergométrico ou cintilografia não são rotina para catarata. Eles entram apenas se a avaliação identificar sintoma novo ou alteração que justifique investigação, e nesse caso a razão é a sua saúde, não a cirurgia dos olhos.
Se alguém sugerir uma bateria extensa de exames para uma cirurgia de catarata em um paciente estável e sem queixas, é razoável perguntar qual achado clínico motivou cada pedido.
Anticoagulantes e antiagregantes: o ponto central
Esta é, na prática, a questão mais relevante da avaliação pré-catarata, e vale entender bem.
Muitos pacientes nessa faixa etária usam ácido acetilsalicílico (AAS), clopidogrel, varfarina ou anticoagulantes orais diretos como rivaroxabana, apixabana ou dabigatrana. Essas medicações reduzem o risco de trombose, infarto e AVC, e suspendê-las tem custo.
A boa notícia é que a cirurgia de catarata moderna, feita por facoemulsificação com incisão muito pequena, costuma sangrar pouquíssimo. Por isso, na maior parte dos casos, essas medicações são mantidas.
Nunca suspenda anticoagulante ou antiagregante por conta própria antes de uma cirurgia. Interromper por iniciativa própria, especialmente em quem tem stent, fibrilação atrial ou histórico de trombose, pode causar um evento grave. A decisão é sempre conjunta entre o médico que prescreveu, o cirurgião e o anestesista.
Leve a lista completa das suas medicações com as doses para a consulta. Se possível, fotografe as caixas. Essa informação vale mais para o seu caso do que qualquer exame adicional.
Como se organizar
Confirme com a clínica de oftalmologia o que exatamente é exigido: em alguns serviços basta uma avaliação clínica, em outros o pedido é especificamente de cardiologista.
Pergunte também qual prazo de validade o serviço aceita para o laudo. O padrão mais comum é 30 dias.
Leve os exames que já tem, mesmo os de meses atrás. Em cirurgia de baixo risco e paciente estável, exames anteriores frequentemente são aceitos e evitam repetição desnecessária.
Se você opera os dois olhos em datas separadas, pergunte se o mesmo laudo cobre os dois procedimentos ou se será preciso uma nova avaliação para o segundo. Isso varia conforme o intervalo entre as cirurgias e a política do serviço.
E mantenha a rotina dos seus remédios até que alguém oriente o contrário. A tendência natural de "parar tudo antes da cirurgia" costuma criar mais risco do que evitar.