Cirurgias ortopédicas de grande porte, como prótese de joelho e de quadril e cirurgias de coluna, quase sempre exigem avaliação cardiológica pré-operatória. Elas reúnem uma combinação particular de fatores: pacientes com idade mais avançada, tempo cirúrgico prolongado, possibilidade de perda sanguínea e, principalmente, um período de imobilidade no pós-operatório que eleva o risco de trombose. Há ainda um detalhe que costuma passar despercebido: quem vai operar o joelho ou o quadril geralmente já está com dor há meses, andando pouco.
O problema de avaliar quem já não caminha
A capacidade funcional é a informação mais valiosa de qualquer avaliação pré-operatória. A pergunta padrão é se a pessoa consegue subir um lance de escada ou caminhar alguns quarteirões sem parar.
Em ortopedia, essa pergunta esbarra num obstáculo: o paciente não caminha porque dói, não porque o coração não aguenta. Alguém com artrose avançada de joelho pode ter um coração excelente e mesmo assim não conseguir subir escadas.
Isso cria uma zona cega real. Sem conseguir testar o esforço, o médico perde justamente o dado que melhor prediz a tolerância à cirurgia, e não dá para saber se existe uma limitação cardíaca escondida atrás da limitação ortopédica.
Por isso, nesse contexto, é mais comum que o cardiologista peça exames complementares que avaliam o coração sem depender da caminhada. E é por isso também que vale relatar com precisão o que você conseguia fazer antes da dor começar. Se há dois anos você subia escadas sem dificuldade e a limitação de hoje é claramente do joelho, essa informação orienta a avaliação.
Preste atenção também em sintomas que aparecem em repouso ou com esforço mínimo: falta de ar ao deitar, cansaço ao tomar banho ou se vestir, inchaço nas pernas. Esses não são explicados pela ortopedia e merecem investigação.
Trombose: o ponto crítico da ortopedia
Cirurgias de quadril e joelho estão entre as de maior risco de trombose venosa profunda entre todos os procedimentos, e por isso a profilaxia é rotina, não exceção.
A razão é a soma de fatores: manipulação de ossos longos, tempo cirúrgico, e sobretudo a imobilidade prolongada no pós-operatório, num membro que já está inflamado pela cirurgia.
A profilaxia costuma envolver medicação anticoagulante por um período após a cirurgia, meias de compressão, dispositivos de compressão pneumática e mobilização o mais cedo possível.
Sobre a mobilização precoce, vale insistir: é a medida em que você tem participação direta. Levantar e caminhar assim que a equipe liberar, mesmo com dor e mesmo por poucos passos, reduz risco de forma concreta. A fisioterapia no pós-operatório imediato não é conforto nem pressa, é prevenção.
Informe ao médico se você já teve trombose, se alguém da família teve, se usa anticoncepcional ou terapia hormonal e se fez viagens longas recentemente. Tudo isso muda o plano de profilaxia.
Cirurgia de fratura no idoso: a corrida contra o tempo
A fratura de quadril em pessoas idosas merece um espaço próprio, porque a lógica se inverte em relação às cirurgias eletivas.
Nesse cenário, adiar tem custo alto. A permanência acamada aumenta o risco de pneumonia, trombose, infecção urinária, úlceras de pressão e delirium. Existe consenso crescente de que operar dentro de um prazo curto melhora os desfechos.
Isso significa que a avaliação cardiológica precisa ser ágil e objetiva: identificar o que muda a conduta agora, sem transformar a investigação num processo que atrasa a cirurgia sem benefício.
Exames adicionais só entram se o resultado for realmente mudar alguma coisa no manejo. Pedir uma bateria completa que adia a cirurgia por dias, num paciente idoso acamado, pode causar mais dano do que o achado que se pretendia encontrar.
Se a família estiver diante dessa situação, uma pergunta útil à equipe é: este exame vai mudar a decisão ou a técnica cirúrgica? Se não, vale discutir a real necessidade diante do custo de esperar.
Como se preparar
Descreva sua capacidade funcional antes da dor. É o dado que ajuda a separar limitação ortopédica de limitação cardíaca.
Relate sintomas que não se explicam pelo problema ortopédico: falta de ar deitado, cansaço em repouso, palpitações, inchaço nas pernas, tontura.
Leve a lista completa de medicações. Quem tem dor crônica costuma usar anti-inflamatórios com frequência, e eles afetam plaquetas e função renal. Informe inclusive os que compra sem receita.
Informe histórico pessoal e familiar de trombose, uso de anticoncepcional ou terapia hormonal.
Leve exames anteriores, especialmente eletrocardiogramas antigos, que servem de comparação.
Organize o pós-operatório antes de operar: quem vai acompanhar, como será o transporte, se a casa precisa de adaptação como retirar tapetes soltos, instalar barras de apoio e melhorar a iluminação. Em cirurgia de quadril e joelho, o preparo da casa influencia diretamente a recuperação e o risco de queda.
Se possível, movimente-se dentro do que a dor permite nas semanas anteriores. Exercícios de membros superiores, respiração e o que o fisioterapeuta orientar ajudam a chegar em melhor condição, mesmo com a limitação do membro que será operado.