A retirada da vesícula (colecistectomia) e a correção de hérnia estão entre as cirurgias mais realizadas no país. Feitas por videolaparoscopia, como acontece na maior parte das vezes, elas têm risco cardiovascular baixo a intermediário: são procedimentos relativamente rápidos, com pouca perda de sangue e recuperação curta. Ainda assim, a avaliação pré-operatória é comum, e há dois detalhes específicos desse tipo de cirurgia que merecem atenção: o efeito do gás usado na barriga e a diferença entre operar de forma programada ou em crise.
O detalhe da videolaparoscopia: o gás na barriga
Para operar por vídeo, o cirurgião precisa criar espaço dentro do abdome, e isso é feito insuflando gás carbônico. É o chamado pneumoperitônio.
Esse gás tem efeitos que interessam ao cardiologista. Ele aumenta a pressão dentro do abdome, o que empurra o diafragma para cima e reduz um pouco a expansão dos pulmões. Também altera o retorno do sangue ao coração e pode elevar a pressão arterial durante o procedimento.
Na maioria das pessoas isso é bem tolerado e passa despercebido. Em quem tem insuficiência cardíaca, doença pulmonar importante ou obesidade acentuada, essas alterações pesam mais, e é exatamente isso que o anestesista quer saber de antemão.
Existe ainda a posição na mesa: em cirurgia de vesícula o paciente costuma ficar com a cabeça mais elevada, e em algumas hérnias, com a cabeça mais baixa. Essas inclinações somam efeito ao do gás.
Nada disso torna a cirurgia perigosa. Serve para explicar por que a avaliação pergunta sobre falta de ar, capacidade de esforço e doença pulmonar, mesmo numa cirurgia considerada pequena.
Cirurgia programada é diferente de cirurgia em crise
Esta distinção muda completamente o processo, e vale entender em qual situação você está.
Na cirurgia eletiva, marcada com antecedência, há tempo para tudo: avaliação cardiológica com calma, exames complementares se necessário, ajuste de medicações e controle de pressão ou diabetes. É o cenário ideal, e é onde a avaliação rende mais.
Na colecistite aguda, a crise de vesícula inflamada, ou na hérnia encarcerada, em que a alça intestinal fica presa, a lógica se inverte. Adiar traz risco próprio e crescente. A avaliação acontece dentro do hospital, com os exames possíveis naquele momento, e a equipe assume um risco calculado porque esperar seria pior.
Se você tem cálculo na vesícula e a cirurgia foi indicada de forma programada, há uma vantagem concreta em não adiar demais: operar em crise é sempre mais difícil que operar com hora marcada, tanto do ponto de vista cirúrgico quanto da avaliação de risco.
Em caso de dor abdominal intensa e persistente, febre, vômitos ou icterícia, com a pele ou os olhos amarelados, procure atendimento de emergência. Não espere a consulta agendada.
O que costuma ser avaliado
Em pessoas saudáveis e para cirurgia eletiva, a avaliação costuma ser direta.
Histórico e sintomas: doenças conhecidas, cirurgias anteriores, medicações e, principalmente, como você responde ao esforço. Consegue subir escadas, caminhar sem cansar?
Exame físico com ausculta e medida da pressão.
Eletrocardiograma, quase sempre solicitado.
Exames de sangue: hemograma, coagulograma, função renal e, em cirurgia de vesícula, também função hepática, porque cálculos podem afetar o fígado e as vias biliares.
Exames adicionais como ecocardiograma entram conforme sintomas, idade e achados, não por rotina.
Um ponto que merece menção: quem tem cálculo na vesícula às vezes relata dor no peito ou na boca do estômago e atribui tudo à vesícula. Vale investigar, porque a dor de origem cardíaca pode se manifestar exatamente nessa região, especialmente em mulheres, diabéticos e idosos. Se a sua dor tem relação com esforço físico e melhora com repouso, mencione isso claramente na consulta.
Medicações e preparo
Anticoagulantes e antiagregantes exigem plano definido pela equipe. Diferente da catarata, aqui há sangramento envolvido, e a decisão sobre suspender ou manter é individual. Nunca interrompa por conta própria, especialmente se você tem stent ou fibrilação atrial.
Remédios de pressão costumam ser mantidos, inclusive na manhã da cirurgia, com um gole de água. Confirme com o anestesista quais tomar naquele dia e anote a resposta.
Medicações para diabetes precisam de ajuste por causa do jejum.
Análogos de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, merecem menção específica em cirurgia de vesícula: além do efeito sobre o esvaziamento do estômago, que importa para a anestesia, essas medicações estão associadas à formação de cálculos biliares, então é comum que quem vai operar a vesícula esteja usando. Informe mesmo que seja apenas para emagrecer.
Suplementos e fitoterápicos que interferem na coagulação, como ômega 3 em dose alta, vitamina E e ginkgo, entram na lista do que deve ser informado.
Sobre o preparo geral: mantenha suas medicações habituais até orientação em contrário, respeite o jejum determinado pela equipe e organize quem vai acompanhar você na alta, já que ninguém dirige após anestesia geral.