Cirurgia plástica exige a mesma avaliação pré-operatória de qualquer outro procedimento, e em alguns casos exige mais atenção. Há uma lógica nisso: por ser eletiva e escolhida pelo paciente, não existe urgência que justifique correr risco evitável. Procedimentos como abdominoplastia, lipoaspiração de grande volume e cirurgias combinadas envolvem tempo prolongado de anestesia, deslocamento de líquidos e um risco de trombose que merece ser levado a sério.
Nem toda plástica tem o mesmo risco
A diferença entre os procedimentos é grande, e isso define a profundidade da avaliação.
Procedimentos menores, como blefaroplastia, otoplastia e pequenas correções feitas com anestesia local, têm risco cardiovascular baixo. A avaliação costuma ser simples em pacientes saudáveis.
Procedimentos de médio porte, como mamoplastia e rinoplastia sob anestesia geral, pedem avaliação mais cuidadosa, especialmente pelo tempo de anestesia.
Procedimentos maiores, como abdominoplastia, lipoaspiração de grande volume e principalmente as cirurgias combinadas, concentram os pontos de atenção. Tempo cirúrgico prolongado, área extensa manipulada, perda de líquidos e imobilidade no pós-operatório aumentam o risco de complicações, sobretudo trombose venosa.
As cirurgias combinadas merecem destaque. Somar abdominoplastia com lipoaspiração e mamoplastia numa única sessão é atraente pela recuperação única, mas alonga bastante o tempo sob anestesia. Esse tempo é uma das variáveis que mais pesam, e vale conversar francamente com o cirurgião sobre dividir em etapas quando a avaliação sugerir.
Trombose: o risco que mais importa aqui
Em cirurgia plástica, a trombose venosa profunda e sua complicação mais temida, a embolia pulmonar, são o desfecho grave mais discutido. Vale entender os fatores que aumentam esse risco, porque vários são modificáveis antes da cirurgia.
Anticoncepcional oral e terapia hormonal. Estrogênio aumenta a chance de trombose. Muitos cirurgiões orientam suspender com algumas semanas de antecedência, mas isso exige plano contraceptivo alternativo e conversa com o ginecologista. Não suspenda por conta própria nem deixe de avisar que usa.
Tabagismo. Além do risco trombótico, o cigarro prejudica a cicatrização e a irrigação da pele, o que em plástica tem consequência direta no resultado. A recomendação habitual é parar semanas antes.
Obesidade, imobilidade prolongada e histórico prévio de trombose, pessoal ou familiar, pesam bastante. Se alguém da sua família teve trombose ou embolia, informe.
Viagens longas próximas à cirurgia, comuns em quem se desloca para operar, somam risco.
As medidas preventivas fazem diferença real: meias de compressão, dispositivos de compressão pneumática durante o procedimento, mobilização precoce no pós-operatório e, em casos selecionados, medicação anticoagulante profilática. Levantar e caminhar cedo é uma das medidas mais eficazes que existem, e depende de você.
Medicações e suplementos que exigem atenção
Este é o ponto em que a cirurgia plástica tem um perfil próprio, porque o público costuma usar substâncias que não aparecem numa lista comum de medicamentos.
Medicações para emagrecer. Análogos de GLP-1 como semaglutida (Ozempic, Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) são muito usados por quem se prepara para uma plástica. Eles retardam o esvaziamento do estômago, o que pode deixar alimento presente mesmo após o jejum e aumentar o risco de aspiração na anestesia. Informe o uso mesmo que seja só para perda de peso. O anestesista define a conduta.
Anti-inflamatórios e AAS aumentam sangramento e costumam ser suspensos antes.
Suplementos e fitoterápicos: ômega 3 em dose alta, vitamina E, ginkgo biloba, alho em cápsula e chá verde concentrado interferem na coagulação. É comum o paciente não mencionar porque não considera remédio.
Anabolizantes e hormônios. Merecem menção franca. Testosterona e derivados alteram a viscosidade do sangue e o perfil cardiovascular, e o uso frequentemente é omitido por constrangimento. O médico precisa saber, e a informação é sigilosa.
Anticoncepcional, conforme já explicado.
A orientação prática: leve tudo o que você usa, incluindo o que compra sem receita, o manipulado e o que toma "só às vezes". Fotografe as embalagens se for mais simples.
Quando vale adiar
Como não há urgência, o limiar para adiar uma plástica é mais baixo do que em outras cirurgias, e isso é uma proteção, não um obstáculo.
Pressão arterial descontrolada deve ser ajustada antes.
Sintomas cardiovasculares não investigados, como dor no peito ou falta de ar aos esforços, precisam de esclarecimento.
Anemia significativa, especialmente antes de procedimentos com perda sanguínea esperada.
Infecção ativa, mesmo que pareça banal, como uma infecção urinária ou dentária.
Perda de peso muito rápida e recente, situação cada vez mais comum com os medicamentos para emagrecer, pode vir acompanhada de alterações nutricionais e de eletrólitos que merecem correção antes.
Tabagismo ativo, pela combinação de risco trombótico e prejuízo à cicatrização.
Um lembrete que vale mais do que parece: desconfie de quem minimiza o preparo. Avaliação pré-operatória criteriosa não é obstáculo comercial, é o que separa um procedimento eletivo seguro de uma complicação evitável. Se um serviço trata a avaliação como formalidade a ser vencida rápido, isso diz algo relevante sobre o serviço.