Ter stent não impede uma cirurgia. Mas esse é um dos poucos cenários do pré-operatório em que o tempo desde o implante muda a conduta de forma decisiva. A razão está nos medicamentos: quem colocou stent usa antiagregantes para impedir que ele entupa, e suspendê-los cedo demais pode causar uma trombose dentro do stent, uma complicação grave. Por isso cirurgias eletivas costumam ser programadas respeitando um intervalo mínimo após o implante.
Por que o tempo desde o implante importa tanto
Quando um stent é colocado dentro da artéria, o organismo leva um tempo até revestir aquela estrutura metálica com uma camada de células próprias. Enquanto esse processo não se completa, o stent é reconhecido como corpo estranho e existe risco de formação de coágulo sobre ele.
Os antiagregantes, em geral AAS combinado com clopidogrel, ticagrelor ou prasugrel, são o que mantém esse risco sob controle nesse período. Essa combinação é chamada de dupla antiagregação plaquetária.
Interromper a dupla antiagregação antes da hora pode causar trombose do stent, um evento agudo com risco de infarto extenso e mortalidade elevada. É por isso que a orientação padrão é adiar cirurgias eletivas até que o período crítico tenha passado.
O intervalo recomendado depende do tipo de stent e da situação em que ele foi implantado. Stents implantados durante um infarto costumam exigir mais cautela que os colocados em procedimento programado. Quem define o prazo do seu caso é o cardiologista que acompanha, junto com o cirurgião.
Cirurgia de urgência muda a lógica
Tudo o que foi dito vale para cirurgias eletivas, que podem esperar.
Quando a cirurgia é de urgência, como uma apendicite, uma fratura grave ou um quadro abdominal agudo, adiar tem custo próprio, muitas vezes maior que o risco de operar com o antiagregante em uso.
Nesses casos a equipe faz uma análise individual, pesando o risco de sangramento contra o risco de trombose. Existem estratégias intermediárias: manter o AAS e suspender apenas o segundo antiagregante, usar medicações de ação curta como ponte, ou operar com o esquema mantido em procedimentos que sangram pouco.
O ponto prático: em urgência, não retarde o atendimento por causa do stent. Informe a equipe que você tem stent, quando foi colocado e quais remédios usa. Essa informação orienta a conduta, e é para isso que ela serve.
O que levar e informar na avaliação
Quem tem stent precisa chegar à consulta com informações que ninguém consegue adivinhar. Vale reunir com antecedência.
A data do implante. É o dado mais importante de todos. Se não lembrar com precisão, procure o relatório do procedimento ou o cartão que costuma ser entregue na alta.
O laudo do cateterismo ou da angioplastia, que descreve quantos stents foram colocados, em quais artérias e de que tipo.
Se o stent foi colocado durante um infarto ou em procedimento programado. Isso muda a leitura do risco.
A lista exata dos antiagregantes, com nome e dose. AAS, clopidogrel, ticagrelor e prasugrel têm comportamentos diferentes, e a equipe precisa saber qual é o seu.
Se você já interrompeu algum deles alguma vez, por qual motivo e o que aconteceu.
Sintomas recentes: dor no peito, falta de ar aos esforços, cansaço novo. Sintoma novo em quem tem stent merece atenção antes de qualquer cirurgia.
O erro mais perigoso: suspender por conta própria
Vale um alerta direto, porque acontece com frequência.
Muita gente, ao saber que vai operar, para os antiagregantes por iniciativa própria, na suposição de que "remédio que afina o sangue" precisa ser interrompido antes de qualquer procedimento. Em quem tem stent, essa decisão isolada pode ser fatal.
O mesmo vale para procedimentos que parecem pequenos. Extração de dente, endoscopia, colonoscopia, cirurgia de catarata e procedimentos dermatológicos costumam ser feitos sem suspender a medicação, porque sangram pouco. Ainda assim, é comum o paciente parar tudo por precaução.
A regra é simples e não tem exceção: quem suspende antiagregante é o médico, nunca o paciente. Se algum profissional pedir a suspensão, avise que você tem stent e peça que ele converse com o seu cardiologista antes.
Se você já parou por conta própria e está lendo isso, não recomece nem interrompa nada sem orientação. Entre em contato com quem acompanha o seu caso.