A cirurgia de coluna — de uma descompressão simples de hérnia de disco até uma artrodese com vários níveis — é uma das que mais justificam uma avaliação cardiológica cuidadosa. O motivo não é o coração mexer diretamente com a coluna, e sim três características do procedimento: ele costuma ser mais demorado, muitas vezes feito com o paciente de bruços (posição prona), e com potencial de perda de sangue. Some a isso a recuperação, em que a mobilidade fica reduzida por um tempo, e você entende por que o cardiologista olha esse caso de perto.
Por que a avaliação é mais detalhada nesse caso
Na maioria das cirurgias, o cardiologista estima o risco de complicações do coração diante daquele procedimento. Na coluna, existem camadas a mais ligadas à própria técnica cirúrgica.
A posição de bruços altera o retorno do sangue ao coração e a mecânica da respiração durante a anestesia. Em quem já tem alguma limitação cardíaca, isso precisa ser conhecido antes.
O tempo de cirurgia importa porque procedimentos mais longos aumentam a exposição à anestesia e o risco de oscilações de pressão. E a possibilidade de sangramento em artrodeses maiores entra no planejamento de quem usa antiagregante ou anticoagulante.
Por fim, a redução de mobilidade no pós-operatório aumenta o risco de trombose nas pernas, que pode ter repercussão no pulmão e no coração. Por isso a prevenção de trombose faz parte do plano desde antes.
O que costuma ser avaliado
Histórico clínico completo: pressão, diabetes, colesterol, tabagismo, infarto ou AVC anteriores, stent, e todas as medicações em uso, com destaque para antiagregantes e anticoagulantes.
Capacidade funcional: o que você consegue fazer sem cansar. Em quem tem dor crônica de coluna e já se movimenta pouco, essa informação exige um pouco mais de conversa para ser bem estimada.
Eletrocardiograma: exame básico, quase sempre solicitado.
Exames de sangue: hemograma (pela possibilidade de sangramento), função renal, glicemia e perfil lipídico.
Ecocardiograma e testes de esforço: conforme os sintomas e os achados, não como rotina.
Plano de medicações e de prevenção de trombose: o que manter, o que suspender, e as medidas para proteger as pernas no pós-operatório.
Trombose: um cuidado que começa antes da cirurgia
A cirurgia de coluna reúne alguns fatores que favorecem a formação de coágulos nas veias das pernas: imobilidade durante um procedimento longo e repouso maior na recuperação.
Um coágulo que se forma na perna pode se soltar e viajar até o pulmão — a chamada embolia pulmonar —, que é uma das complicações graves que a equipe quer evitar.
Por isso o plano de prevenção começa antes: avaliação do risco individual, uso de meias ou dispositivos de compressão, mobilização precoce assim que possível e, em muitos casos, medicação preventiva no período adequado.
Quem já teve trombose, embolia ou tem fibrilação atrial precisa comunicar isso claramente, porque muda o planejamento de forma importante.
O que pode adiar a liberação
Sintomas cardíacos não esclarecidos: dor no peito, falta de ar desproporcional, palpitações frequentes ou desmaios.
Pressão descontrolada, que costuma exigir ajuste antes de uma cirurgia com oscilações previsíveis.
Stent ou infarto recentes, que têm tempo de espera recomendado para cirurgias eletivas.
Anemia importante, que num procedimento com risco de sangramento merece ser investigada e corrigida antes.
Como a maioria das cirurgias de coluna é eletiva, há espaço para resolver essas pendências. Chegar bem preparado é o que torna a recuperação mais tranquila.