Pré-operatório

Risco cirúrgico em quem já teve infarto

Ter tido um infarto não proíbe cirurgias — mas muda o tempo de espera, o cuidado com as medicações e o que precisa ser verificado antes. Entenda cada ponto.

Risco cirúrgico em quem já teve infarto — ilustração do artigo da Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista em Brasília-DF

Quem já teve um infarto costuma receber a recomendação de operar com um cuidado extra, e isso é correto. Mas há um mal-entendido frequente: ter tido infarto não proíbe fazer cirurgias. O que muda são três coisas — o tempo de espera entre o infarto e uma cirurgia eletiva, o manejo dos antiagregantes (sobretudo em quem recebeu stent) e a verificação de que o coração está estável no momento. A avaliação cardiológica existe justamente para organizar esses três pontos e dar a liberação com segurança.

O tempo de espera depois do infarto

Logo após um infarto, o coração passa por um período de recuperação e maior fragilidade. Operar uma cirurgia eletiva nesse intervalo aumenta o risco de um novo evento.

Por isso, quando a cirurgia pode esperar, costuma-se recomendar um intervalo de alguns meses entre o infarto e o procedimento, para dar tempo de o coração estabilizar e, quando houve stent, de completar a fase mais crítica da antiagregação.

Esse tempo não é um número fixo para todos: depende do tipo de infarto, de ter havido ou não colocação de stent, de como ficou a função do coração e da urgência da cirurgia.

Em cirurgias de urgência, a espera nem sempre é possível — e aí a conduta é outra, com medidas de proteção durante e após o procedimento. É um equilíbrio que o cardiologista faz junto com o cirurgião.

Antiagregantes e stent: o ponto mais delicado

Muita gente que teve infarto saiu do hospital com um ou dois antiagregantes — tipicamente aspirina e um segundo remédio, como clopidogrel, ticagrelor ou prasugrel. Quem recebeu stent depende deles para o stent não entupir.

Suspender esses remédios cedo demais, principalmente nos primeiros meses após o stent, pode causar uma trombose do stent, que é um evento grave. Por outro lado, mantê-los aumenta o risco de sangramento na cirurgia.

A solução não é escolher um lado, e sim planejar: muitas vezes a aspirina é mantida e o segundo antiagregante é ajustado no momento certo; às vezes a cirurgia é adiada para preservar a proteção do stent.

Essa é a decisão que mais precisa ser individual e combinada entre cardiologista, cirurgião e anestesista. Leve o relatório da alta e os exames do coração à consulta para que o plano saia completo.

O que a avaliação verifica

Estabilidade atual: se você tem sintomas como dor no peito aos esforços, falta de ar ou cansaço desproporcional, que indicariam que a doença não está controlada.

Capacidade funcional: o quanto você consegue se esforçar sem sintomas, um dos melhores indicadores de que o coração tolera a cirurgia.

Função do coração: o ecocardiograma mostra como ficou a força de bombeamento após o infarto, uma informação que pesa no risco.

Medicações de proteção: remédios como betabloqueadores e estatinas costumam ser mantidos no período da cirurgia, porque protegem o coração.

Exames de sangue e eletrocardiograma, para comparar com os anteriores e flagrar qualquer mudança.

A partir disso, o cardiologista define se a cirurgia pode seguir, o que ajustar e qual o melhor momento.

O que pode adiar a liberação

Infarto recente, pelo tempo de espera recomendado para cirurgias eletivas.

Stent recente, pela necessidade de preservar a dupla antiagregação na fase crítica.

Sintomas de que a doença está ativa: dor no peito, falta de ar progressiva ou arritmia nova.

Função do coração muito reduzida, que pede otimização do tratamento antes.

Em quase todos esses casos, a cirurgia continua possível — ela apenas acontece no momento certo e com as proteções adequadas. Adiar algumas semanas costuma ser o que reduz o risco de um novo evento.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas sobre risco cirúrgico em quem já teve infarto

Quem já teve infarto pode fazer cirurgia?

Pode. Ter tido infarto não proíbe cirurgias. O que muda é o tempo de espera entre o infarto e uma cirurgia eletiva, o manejo dos antiagregantes — especialmente em quem tem stent — e a verificação de que o coração está estável. A avaliação cardiológica organiza esses pontos e dá a liberação com segurança.

Quanto tempo depois do infarto posso operar?

Quando a cirurgia é eletiva, costuma-se recomendar um intervalo de alguns meses, para o coração estabilizar e, se houve stent, completar a fase crítica da antiagregação. Não é um número fixo: depende do tipo de infarto, de ter havido stent, da função do coração e da urgência. Em cirurgias de urgência, usam-se outras medidas de proteção.

Preciso parar a aspirina e o clopidogrel antes da cirurgia?

Essa é a decisão mais delicada e deve ser individual. Suspender cedo demais, sobretudo nos primeiros meses após o stent, pode causar trombose do stent; manter aumenta o risco de sangramento. Muitas vezes a aspirina é mantida e o segundo antiagregante é ajustado no momento certo. Cardiologista, cirurgião e anestesista decidem juntos — nunca por conta própria.

Vou continuar tomando meus remédios do coração no dia da cirurgia?

Em geral, sim. Medicações de proteção como betabloqueadores e estatinas costumam ser mantidas no período da cirurgia, porque protegem o coração. Outros remédios podem ter ajustes pontuais. A avaliação entrega uma lista clara do que manter, suspender ou ajustar, e em que momento.

Tive infarto, mas me sinto bem. Ainda preciso de avaliação antes de operar?

Sim, e sentir-se bem é um ótimo sinal — a capacidade de se esforçar sem sintomas é um dos melhores indicadores de que o coração tolera a cirurgia. Mesmo assim, a avaliação confirma a estabilidade, verifica a função do coração pelo ecocardiograma e organiza o manejo das medicações, o que é o que garante uma cirurgia tranquila.