A cirurgia de varizes é, na maioria das vezes, um procedimento de risco baixo a moderado. Mas há um detalhe que o cardiologista nunca perde de vista: a doença dos vasos quase nunca é local. Quem tem alteração importante nas veias e, sobretudo, nas artérias das pernas costuma ter o mesmo processo de aterosclerose nas artérias do coração e do cérebro. Por isso, mais do que liberar a cirurgia, a avaliação é uma boa oportunidade de olhar o sistema cardiovascular como um todo — e a prevenção de trombose entra no plano desde o começo.
Por que o cardiologista olha além das pernas
Existe uma diferença importante entre a cirurgia de varizes (um problema das veias, geralmente estético e de desconforto) e as cirurgias vasculares arteriais (sobre artérias entupidas, aneurismas, circulação das pernas). As arteriais são de risco cardiovascular mais alto.
O ponto comum é que a pessoa que precisa operar artérias frequentemente carrega aterosclerose difusa: as mesmas placas que estreitam a artéria da perna podem estar nas coronárias, muitas vezes de forma silenciosa.
Por isso, nessas cirurgias, a avaliação costuma ser mais detalhada. Já na cirurgia de varizes mais simples, ela tende a ser mais enxuta, proporcional ao risco real do procedimento — sem deixar de aproveitar a consulta para rastrear fatores de risco.
O que costuma ser avaliado
Histórico clínico: pressão, diabetes, colesterol, tabagismo (fator de peso enorme na doença vascular), infarto ou AVC anteriores, dor nas pernas ao caminhar e histórico de trombose.
Capacidade funcional: o quanto você se esforça sem sintomas. Quando a própria doença das pernas limita a caminhada, essa avaliação exige um pouco mais de cuidado para não subestimar o coração.
Eletrocardiograma e exames de sangue (glicemia, perfil lipídico, função renal).
Ecocardiograma e testes de esforço ou imagem entram conforme os sintomas e o tipo de cirurgia — mais provável nas vasculares arteriais, menos na varizes simples.
Plano de medicações e de prevenção de trombose, com orientação clara sobre antiagregantes e anticoagulantes.
Trombose: o risco que acompanha a doença das veias
Quem tem varizes e doença das veias já parte de um terreno em que o sangue circula mais devagar nas pernas, o que favorece a formação de coágulos.
Por isso a prevenção de trombose é parte natural do planejamento: avaliação do risco individual, mobilização precoce, compressão quando indicada e, em casos selecionados, medicação preventiva.
Um coágulo nas veias profundas pode se soltar e chegar ao pulmão, de modo que esse cuidado não é exagero — é o que reduz uma das complicações que mais preocupam.
Quem já teve trombose ou embolia antes deve deixar isso bem claro, porque muda o plano e, às vezes, a própria técnica cirúrgica escolhida pelo cirurgião vascular.
O que pode adiar a liberação
Sintomas cardíacos não esclarecidos: dor no peito aos esforços, falta de ar desproporcional ou desmaios.
Doença coronária suspeita em quem vai operar artérias, situação em que às vezes é preciso investigar o coração antes.
Pressão ou diabetes muito descontrolados, que pedem ajuste.
Tabagismo ativo, que não impede a cirurgia, mas cujo abandono, mesmo que recente, já melhora a cicatrização e reduz complicações.
Em cirurgias eletivas, usar esse tempo para estabilizar os fatores de risco costuma valer a pena — e protege não só a cirurgia, mas o coração a longo prazo.