Pré-operatório

Risco cirúrgico para cirurgia ginecológica e cesárea

Da retirada de mioma à cesárea, o que a avaliação cardiológica verifica e por que a gravidez muda completamente a leitura dos sintomas.

Risco cirúrgico para cirurgia ginecológica e cesárea — orientação com a Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista

Cirurgias ginecológicas cobrem uma faixa ampla de risco: de procedimentos rápidos por histeroscopia até histerectomias de grande porte. A avaliação cardiológica é indicada conforme o porte do procedimento e a saúde de quem opera. Já a cesárea tem uma lógica própria, porque a gravidez altera de forma profunda o funcionamento do coração, e sintomas que seriam sinais de alerta em outra situação passam a ser esperados. Distinguir um do outro é justamente o trabalho da avaliação.

O que a gravidez faz com o coração

Entender isso ajuda a interpretar o que se sente e o que os exames mostram.

Durante a gestação, o volume de sangue circulante aumenta de forma expressiva e o coração passa a bombear mais a cada minuto. A frequência cardíaca sobe, a pressão tende a cair no meio da gestação e voltar a subir perto do fim. Tudo isso é fisiológico.

A consequência prática: falta de ar leve, palpitações, cansaço e inchaço nas pernas são comuns numa gravidez normal. Se fossem relatados fora da gestação, mereceriam investigação.

Isso cria a dificuldade central: como separar o esperado do preocupante. Alguns sinais merecem avaliação mesmo na gravidez: falta de ar que impede atividades simples ou que aparece deitada, dor no peito, desmaio, palpitação com tontura, ou piora rápida do inchaço acompanhada de dor de cabeça e alterações visuais.

Vale saber também que o eletrocardiograma muda na gestação por conta do deslocamento do coração pelo útero aumentado. Alterações que pareceriam anormais podem ser esperadas nesse contexto, e por isso o exame precisa ser lido por quem considera a gravidez.

Quando a cesárea pede avaliação cardiológica

A maioria das cesáreas em gestantes saudáveis não exige avaliação cardiológica específica. Ela é indicada em situações determinadas.

Doença cardíaca prévia: valvopatia, cardiopatia congênita corrigida ou não, arritmia conhecida, miocardiopatia. Nesses casos o acompanhamento ideal começa antes mesmo da gestação.

Hipertensão na gravidez, pré-eclâmpsia ou eclâmpsia. São condições com impacto cardiovascular direto e que exigem cuidado no parto e no puerpério.

Diabetes gestacional descontrolado ou diabetes prévio.

Sintomas cardiovasculares fora do padrão esperado da gestação, conforme descrito acima.

Sopro cardíaco novo identificado no pré-natal. Vale um esclarecimento: sopros discretos são comuns na gravidez pelo aumento do fluxo, e a maioria não indica doença. Mas um sopro novo e mais intenso merece um ecocardiograma.

Gestação múltipla ou idade materna mais avançada, pela sobrecarga adicional.

Cirurgias ginecológicas: o que pesa

Fora da gestação, o porte do procedimento é o que determina a profundidade da avaliação.

Histeroscopia e procedimentos ambulatoriais têm risco baixo, e a avaliação costuma ser simples em pacientes saudáveis.

Retirada de mioma e cirurgias por videolaparoscopia ficam num patamar intermediário. Aqui vale o mesmo detalhe das outras cirurgias por vídeo: o gás usado para criar espaço no abdome altera a pressão interna e a mecânica respiratória, o que interessa em quem tem doença cardíaca ou pulmonar.

Histerectomia, especialmente por via abdominal, é de maior porte, com tempo cirúrgico prolongado e possibilidade de perda sanguínea relevante.

Existe um fator frequentemente subestimado nesse grupo: anemia. Mulheres com miomas e sangramento aumentado ao longo de meses ou anos costumam chegar à cirurgia com hemoglobina baixa, o que reduz a reserva diante de uma nova perda de sangue e aumenta o esforço do coração. Corrigir a anemia antes de uma cirurgia eletiva é uma das intervenções pré-operatórias com melhor retorno, e muitas vezes é o motivo de um adiamento bem indicado.

Trombose, hormônios e o pós-operatório

Cirurgias ginecológicas de médio e grande porte têm risco aumentado de trombose venosa, e alguns fatores desse grupo somam.

Anticoncepcional oral com estrogênio e terapia hormonal aumentam esse risco. É comum a orientação de suspender com antecedência antes de cirurgias maiores, mas isso exige plano contraceptivo alternativo combinado com o ginecologista. Informe o uso sempre, mesmo que decida manter.

Histórico pessoal ou familiar de trombose muda o plano de profilaxia e precisa ser mencionado.

Tabagismo, especialmente combinado com anticoncepcional, é um fator relevante.

As medidas preventivas incluem meias de compressão, dispositivos pneumáticos durante o procedimento, medicação profilática em casos selecionados e mobilização precoce. Levantar e caminhar assim que a equipe liberar é a medida em que você tem participação direta.

No puerpério, após o parto, o risco de trombose também é maior que o habitual, e a atenção continua nas semanas seguintes. Procure avaliação se aparecer dor e inchaço em uma perna só, falta de ar súbita ou dor no peito.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas frequentes

Toda cesárea precisa de avaliação cardiológica?

Não. A maioria das cesáreas em gestantes saudáveis não exige avaliação cardiológica específica. Ela é indicada quando há doença cardíaca prévia, hipertensão na gravidez ou pré-eclâmpsia, diabetes descontrolado, sopro novo identificado no pré-natal, gestação múltipla ou sintomas fora do padrão esperado da gestação.

Falta de ar e palpitação na gravidez são normais?

Em grau leve, sim. O volume de sangue aumenta bastante na gestação e o coração trabalha mais, então falta de ar leve, palpitações, cansaço e inchaço nas pernas são comuns. Merecem avaliação: falta de ar que impede atividades simples ou aparece deitada, dor no peito, desmaio, palpitação com tontura, ou piora rápida do inchaço com dor de cabeça e alterações visuais.

Descobri um sopro no pré-natal. É grave?

Na maioria das vezes, não. Sopros discretos são comuns na gravidez pelo aumento do fluxo sanguíneo e costumam desaparecer após o parto. Mas um sopro novo e mais intenso merece investigação com ecocardiograma, especialmente se vier acompanhado de sintomas como falta de ar desproporcional ou dor no peito.

Preciso parar o anticoncepcional antes da cirurgia ginecológica?

Em cirurgias de médio e grande porte, é comum a orientação de suspender com antecedência, porque o estrogênio aumenta o risco de trombose. Mas isso exige plano contraceptivo alternativo combinado com o ginecologista. Informe o uso sempre, mesmo que a decisão final seja manter.

Por que a anemia adia cirurgia de mioma?

Mulheres com miomas e sangramento aumentado por meses ou anos costumam chegar com hemoglobina baixa. Isso reduz a reserva diante de uma nova perda de sangue e aumenta o esforço do coração. Corrigir a anemia antes de uma cirurgia eletiva é uma das intervenções pré-operatórias com melhor retorno, e costuma ser um adiamento bem indicado.