A cirurgia de próstata — seja a ressecção endoscópica (RTU) para o aumento benigno, seja a prostatectomia radical para o câncer — é operada quase sempre em homens acima dos 60 anos. É a faixa em que hipertensão, diabetes, colesterol alto e doença coronária já estão presentes com frequência, muitas vezes com uso de antiagregante ou anticoagulante. Por isso a avaliação cardiológica pré-operatória é uma etapa comum, e a dúvida que mais aparece é o que fazer com esses remédios que "afinam o sangue".
Por que o cardiologista entra nessa cirurgia
A cirurgia de próstata em si não é de grande porte na maioria dos casos. O que pesa é o perfil de quem opera: homem mais velho, com fatores de risco cardiovascular acumulados ao longo da vida e, não raro, com um stent ou um infarto antigo no histórico.
O papel do cardiologista aqui é duplo. Primeiro, estimar o risco de uma complicação do coração durante e logo após a cirurgia. Segundo, e tão importante quanto, orientar o manejo dos antiagregantes e anticoagulantes, porque a cirurgia de próstata tem risco de sangramento e muitos desses pacientes dependem desses remédios para proteger o coração ou o cérebro.
É aquele equilíbrio delicado: suspender cedo demais aumenta o risco de trombose; manter até o fim aumenta o risco de sangramento. Quem decide isso não é o paciente nem a bula, e sim a conversa entre cardiologista, urologista e anestesista.
O que costuma ser avaliado
Histórico clínico: pressão, diabetes, colesterol, tabagismo, infarto ou AVC anteriores, colocação de stent, cirurgias cardíacas e todas as medicações em uso — com atenção especial à aspirina, ao clopidogrel e aos anticoagulantes como varfarina, rivaroxabana e apixabana.
Capacidade funcional: o quanto você consegue se esforçar sem sintomas, como subir escadas ou caminhar em ritmo firme. É um dos melhores indicadores práticos de como o coração responde.
Eletrocardiograma: quase sempre solicitado nessa faixa de idade.
Exames de sangue: função renal, hemograma, glicemia e perfil lipídico. A função renal importa também porque interfere na dose de alguns anticoagulantes.
Ecocardiograma, teste ergométrico ou Holter: entram conforme os sintomas e os achados, não como rotina obrigatória.
Plano para as medicações: por escrito, dizendo quais remédios manter, quais suspender e quantos dias antes — e o que reintroduzir depois.
Antiagregantes e anticoagulantes: o ponto central
Esta é a parte que mais gera insegurança, e com razão. A orientação é individual, mas alguns princípios ajudam a entender a lógica.
Aspirina em dose baixa muitas vezes pode ser mantida, dependendo do tipo de cirurgia de próstata e do motivo pelo qual você a toma. Nem sempre precisa parar.
Quem tem stent recente merece atenção redobrada: interromper a dupla antiagregação cedo demais pode entupir o stent, e por isso o ideal é, sempre que possível, adiar a cirurgia eletiva até passar o período crítico.
Anticoagulantes em geral precisam ser suspensos alguns dias antes de uma cirurgia com risco de sangramento, às vezes com uma medicação "ponte" no intervalo, às vezes não. O número de dias depende do remédio e da sua função renal.
O recado é simples: não suspenda nada por conta própria e não decida pela bula. Leve todas as caixas à consulta para que o plano saia pronto e seguro.
O que pode adiar a liberação
Sintomas cardíacos não esclarecidos: dor no peito aos esforços, falta de ar desproporcional, palpitações frequentes ou desmaios pedem investigação antes.
Pressão arterial descontrolada costuma exigir ajuste e um período de estabilização.
Stent muito recente ou infarto recente, que têm um tempo de espera recomendado para cirurgias eletivas.
Alterações novas no eletrocardiograma que precisem ser entendidas.
Adiar algumas semanas para resolver uma dessas pendências quase sempre compensa: é uma complicação a menos no pós-operatório, numa cirurgia que não é de emergência.