Pré-operatório

Risco cirúrgico para procedimento odontológico

Extrações, implantes e cirurgias na gengiva levantam duas perguntas ao coração: preciso parar o remédio que afina o sangue e preciso de antibiótico antes? Entenda.

Risco cirúrgico para procedimento odontológico — ilustração do artigo da Dra. Fernanda Pimenta, cardiologista em Brasília-DF

Muita gente chega ao consultório com um pedido do dentista para "liberação do cardiologista" antes de um implante, de uma extração ou de uma cirurgia na gengiva. Procedimentos odontológicos costumam ter baixo risco cardiovascular, mas há dois pontos que realmente dependem do coração e que valem uma conversa: o que fazer com os remédios que afinam o sangue e quem precisa de antibiótico preventivo para proteger as válvulas do coração. É nisso que a avaliação se concentra.

Por que o dentista pede a liberação

Na maioria das vezes, o pedido não é porque o procedimento é perigoso para o coração — ele raramente é. O pedido surge quando o dentista identifica que você tem alguma condição cardíaca, usa anticoagulante, tem pressão alta ou um histórico que merece um parecer antes de mexer.

O papel do cardiologista aqui é, acima de tudo, dar segurança a todo mundo: confirmar que o coração está estável para o procedimento, orientar o manejo das medicações e dizer, de forma objetiva, se há necessidade de alguma precaução especial.

Vale um lembrete tranquilizador: a imensa maioria dos atendimentos odontológicos, incluindo extrações simples e implantes, é segura mesmo em quem tem doença do coração bem controlada.

Anticoagulantes e antiagregantes: quase sempre NÃO se suspende

Este é o ponto que mais causa confusão, e a resposta costuma surpreender. Na odontologia, a orientação atual é manter os anticoagulantes e antiagregantes na maioria dos procedimentos, e não suspendê-los.

A razão é de equilíbrio de riscos: o sangramento de uma extração ou de um implante costuma ser controlável localmente, com medidas que o próprio dentista domina — pontos, compressão, agentes que ajudam o coágulo a se formar na boca. Já suspender o remédio expõe o paciente a um risco bem mais grave, o de trombose ou AVC.

Por isso, parar a varfarina, a rivaroxabana, a aspirina ou o clopidogrel "por via das dúvidas" antes do dentista costuma ser um erro, não uma precaução. Quando houver qualquer ajuste necessário, ele deve ser decidido pelo cardiologista, caso a caso, e não presumido.

Quem usa varfarina pode precisar apenas de um exame recente (o INR) mostrando que está na faixa certa, o que já tranquiliza o dentista para operar com segurança.

Profilaxia de endocardite: só para alguns corações

A endocardite infecciosa é uma infecção das válvulas do coração que, em pessoas predispostas, pode começar a partir de bactérias que entram na corrente sanguínea durante certos procedimentos odontológicos.

A novidade dos últimos anos é que o antibiótico preventivo não é mais indicado para todo mundo. Ele ficou reservado a um grupo específico e de maior risco: quem tem prótese valvar, quem já teve endocardite, alguns casos de cardiopatia congênita e transplantados cardíacos com problema de válvula.

Se você não está nesse grupo, muito provavelmente não precisa de antibiótico antes do dentista — e tomar sem necessidade tem seus próprios riscos. Se está, a orientação é clara e simples de seguir.

É exatamente esse enquadramento que a avaliação cardiológica resolve: dizer, com base no seu coração, se a profilaxia se aplica ao seu caso.

Quando vale a pena adiar

Pressão muito descontrolada no dia, principalmente antes de procedimentos mais longos ou com uso de anestésico com vasoconstritor.

Sintomas cardíacos ativos: dor no peito, falta de ar recente ou palpitações que ainda não foram investigadas.

Infarto, AVC, stent ou cirurgia cardíaca muito recentes, situação em que se costuma preferir aguardar um curto período para procedimentos eletivos.

Fora essas situações, o caminho mais comum não é adiar, e sim ajustar os detalhes e seguir — o atraso de um tratamento dentário também tem custo para a saúde.

Conteúdo informativo, escrito pela Dra. Fernanda Pimenta. Não substitui uma consulta médica. Em caso de sintomas graves, procure atendimento de emergência.

Tire suas dúvidas

Perguntas sobre risco cirúrgico para procedimento odontológico

Preciso parar o anticoagulante antes de uma extração ou implante?

Na maioria dos procedimentos odontológicos, não. A orientação atual é manter anticoagulantes e antiagregantes, porque o sangramento costuma ser controlável localmente pelo dentista, enquanto suspender o remédio expõe a um risco maior de trombose ou AVC. Qualquer ajuste deve ser decidido pelo cardiologista, caso a caso, e nunca por conta própria.

Todo mundo precisa tomar antibiótico antes do dentista por causa do coração?

Não. A profilaxia de endocardite ficou reservada a um grupo específico de maior risco: quem tem prótese valvar, quem já teve endocardite, alguns casos de cardiopatia congênita e transplantados com problema de válvula. Fora desse grupo, o antibiótico preventivo geralmente não é indicado. A avaliação cardiológica define se ele se aplica ao seu caso.

Uso varfarina. O que o dentista vai precisar?

Em geral, a varfarina é mantida, e o dentista costuma pedir apenas um exame recente, o INR, mostrando que você está dentro da faixa recomendada. Isso dá segurança para realizar o procedimento com as medidas locais de controle de sangramento. O cardiologista orienta a frequência e o momento de colher esse exame.

Tenho pressão alta. Posso fazer o implante?

Com a pressão controlada, sim, sem problema. A atenção é com a pressão muito descontrolada no dia do procedimento, principalmente em atendimentos mais longos ou com anestésico que contém vasoconstritor. Por isso vale manter a medicação em dia e medir a pressão antes. A avaliação cardiológica ajuda a deixar esse ponto resolvido.

Por que o dentista pediu liberação do cardiologista?

Normalmente porque você tem alguma condição do coração, usa anticoagulante, tem pressão alta ou um histórico que merece um parecer antes. Não significa que o procedimento seja perigoso — a maioria é segura. A liberação serve para confirmar que o coração está estável, orientar as medicações e definir se há alguma precaução específica, como a profilaxia de endocardite.